Texto curatorial

Texto curatorial

por Julia Cavazzini Cunha

Abelhas escuras, a quem buscais 

Na alfazema que desperta? 

 

Passa o vosso rei servo. 

Cego, ele vagueia, dispersando-se. 

 

Caçador, ele foge 

Das flores que o perseguem. 

Ele curva seu arco, cada criatura brilha. 

Alta é sua noite; flechas, tomem seu rumo. 

 

Um meteoro humano tem a terra por mel.

René Char, A recepção de Órion (1975) 

 

  1. Natureza + Cultura = Comida

Durante décadas, mapas da língua ilustraram livros de ciência e o imaginário coletivo, representando o paladar como um sistema rigidamente isolado. Desenhava-se uma espécie de cartografia na qual cada região deste órgão seria responsável exclusiva por um gosto específico — o doce na ponta, o amargo no fundo, o salgado e o azedo nas laterais e, mais recentemente, o umami pelo centro. Hoje, a ciência já desmistificou esse modelo. No entanto, ele se perpetua não mais como verdade biológica, mas como uma interpretação lúdica de que a língua pode ser lida tal qual um mapa geográfico. 

O título da mostra da artista paulistana Valentina Tedeschi parte desse mito para propor uma reflexão profunda sobre o gosto doce. Ocupando a ponta da língua, o adocicado dos sabores funciona quase como o portal que abre os demais, na medida em que é projetando a ponta da língua que testamos e provamos as coisas antes de consumi-las. Mesmo que o mapa tenha caído por terra, o contato com o doce como primeira experiência com o mundo permanece real: afinal, é através da doçura do leite materno que os seres humanos inauguram o aprendizado do comer. 

É a partir desse convite ao doce e aos territórios da língua que Valentina nos convida a interpretar o que existe de história, memória e tecnologia em torno da comensalidade. A artista nos lembra de que o paladar não apenas integra os distintos gostos de forma complexa, mas existe como uma experiência multissensorial construída pelo cérebro a partir do tato, do olfato, da visão, da temperatura, bem como da memória e da expectativa. É um sentido que se estrutura em um dos gestos mais antigos da humanidade: o ato de transformar a natureza selvagem em alimento. 

Para compreender a profundidade dessa metamorfose, vale recorrer às teses clássicas da antropologia. Segundo Claude Lévi-Strauss, é precisamente na passagem do cru — a natureza intocada — para o cozido — a matéria transformada pelo grupo — que a própria cultura humana nasce. 

Em sua obra Espetinho, o fungo, colhido da terra, é atravessado por um varão de metal. Ao deslocá-lo de seu habitat e apresentá-lo na forma mais próxima de seu preparo culinário, Valentina evidencia como a tecnologia transforma um mesmo ingrediente. Na floresta, o cogumelo pertence ao tempo da umidade, do solo e da decomposição; no espeto, ele passa a integrar o repertório técnico da cozinha. Entre a paisagem e o churrasco, o ingrediente muda de estatuto: deixa de ser apenas organismo para tornar-se alimento, memória e cultura. 

O escritor Michael Pollan, em seu livro Cozinhar: Uma história natural da transformação, aprofunda essa ideia ao sugerir que o cozimento não é apenas uma metáfora cultural, mas a base mecânica da nossa evolução: 

“Para Lévi-Strauss, cozinhar servia como uma metáfora da transformação humana da natureza crua para a cultura cozida. Porém, passados muitos anos desde a publicação de O cru e o cozido, outros antropólogos começaram a considerar, no sentido literal, a ideia de que a invenção do ato de cozinhar poderia guardar o segredo da evolução para a nossa condição de seres humanos.” 

Foi através do domínio do fogo e do amolecimento dos alimentos que se permitiu o desenvolvimento do nosso cérebro, tornando possível aquilo que hoje chamamos de humano. A princípio, o corpo humano gastava muito mais tempo mastigando e digerindo os ingredientes que encontrava na natureza, e a pouca energia que lhe restava era usada também na caça. Não à toa a historiadora Bee Wilson afirma: “a história da alimentação é a história das tecnologias” — e Valentina nos lembra e mostra a importância dessas ferramentas para nossa história. 

Essa herança histórica materializa-se na obra Arroz com feijão, pertencente à série Svalbard. O nome da série faz referência direta ao Banco Global de Sementes localizado no homônimo no arquipélago ártico, um cofre fortificado concebido para resguardar a agrobiodiversidade e a segurança alimentar das nações diante de possíveis catástrofes globais. O Brasil colabora com esse inventário enviando amostras de arroz e feijão — a dupla de grãos que constitui a base nutricional e a identidade do prato nacional. 

No espaço expositivo, Valentina apropria-se de uma placa de ferro desgastada pela ação natural do tempo e, através de um controlado processo de oxidação e abrasão, faz surgir na superfície do metal uma espécie de raio-X ou constelação feita com as silhuetas desses grãos estruturais. Ao fossilizar o arroz e o feijão sobre o metal, a artista eleva o ingrediente popularmente visto como banal ao status de relíquia arqueológica, transformando o prato trivial em um monumento de resistência histórica. 

  1. A plasticidade do fogo e do tempo

Para além do debate histórico, existe no trabalho de Valentina um visível deslumbre com as propriedades plásticas e físico-químicas do universo culinário. Na paleta de cores que conduz a exposição, predominam os amarelos quentes, os laranjas oxidados quase marrons e os pretos marcadamente densos e terrosos. Essa escolha cromática desperta o caráter apetitoso que certos tons proporcionam, operando um estranhamento magnético mesmo quando temos plena consciência da materialidade industrial das peças. 

Esses tons quentes nos apresentam visualmente o que na ciência dos alimentos se chama de Reação de Maillard: o processo químico de escurecimento que ocorre quando o calor promove a ligação entre proteínas e açúcares de um ingrediente. É essa reação invisível que contorna a crosta escura de um pão de fermentação natural, doura a batata frita e impulsiona o nosso apetite. É por causa dela que o olhar prefere intuitivamente um bife selado na manteiga em fogo alto a uma carne puramente fervida em água. Sabendo do nosso desejo ancestral por esse aspecto queimado, a própria indústria de ultraprocessados tenta simular artificialmente o processo em pães de fôrma, biscoitos e salgadinhos, devolvendo algum vigor à palidez industrial. Historicamente, o olho humano aprendeu a saborear o calor impresso na comida. 

Essa investigação cromática expande-se de forma surpreendente nas esculturas Artrópode e Escorpião-amarelo. Aqui, Valentina deixa o fogo de lado para trabalhar com o espectro de tons do mel. A artista encapsula o ingrediente translúcido na forma dessas criaturas atemporais, dando vida a uma espécie de âmbar artificial ou “doce fóssil”. 

Nessas peças, a transformação cromática opera de maneira inversa à da cozinha: em vez de exigir o calor imediato e violento do fogo, o mel realiza seu escurecimento de forma silenciosa, lenta e discreta. Sem precisar de chamas, reagindo apenas à temperatura ambiente da galeria, a substância vai mudando de matiz ao longo das semanas. O tempo faz na exposição o que o fogão faz em minutos. Assim, tanto o escorpião quanto o artrópode — que já possuem nuances biológicas próprias — incorporam gradualmente o passar dos dias em sua própria matéria. 

Esse jogo com as tonalidades quentes e os ciclos orgânicos também se estende à obra Bicho do Amendoim. Nela, o contraste do latão com o arame projeta cores quentes sobre um suporte de metal frio. Ao mesmo tempo, sua forma alongada e o título satírico evocam os carunchos (Palembus Dermestoides), insetos que habitam o interior dos grãos. Popularmente conhecido como “besouro do amendoim”, esse ser recebe tal nome por ser historicamente criado em farelos e rações ricas em óleos vegetais, encontrando nos grãos tanto o substrato para sua reprodução quanto sua fonte principal de alimento. Na escultura, a casca forjada pela artista se apresenta como um abrigo promissor para essas pequenas criaturas, devolvendo-nos a compreensão vívida de uma natureza que teima em reocupar seu habitat. 

Como observa o filósofo francês Emanuele Coccia, compartilhamos uma mesma matriz vital com esses seres: todos nascemos das mesmas tramas da vida. Se, por um lado, a cozinha é a tecnologia humana que nos distingue no reino animal, por outro, o bicho que transforma o alimento em casa nos lembra, com humor, que não ocupamos o universo sozinhos. 

Diante disso, fica evidente que o foco de Valentina vai muito além do valor nutricional ou qualitativo da comida. A artista joga com os nossos sentidos corporais para fabricar evidências materiais de um passado cultural, documentando rituais que se perpetuam através das eras. Há uma fina camada de ironia nessas texturas: ao conferir uma sobrevida ao que seria perecível, ela nos faz rir e estranhar ao mesmo tempo. 

Por fim, o ferro fundido, o aço pesado e o latão bruto deixam de ser simples utensílios de apoio para se tornarem a própria anatomia visível do trabalho artístico. A oxidação provocada, a fundição e a ferrugem borram de vez os limites entre a visualidade apetitosa da culinária e a hostilidade industrial dos metais. Assim como o mel que escurece na vitrine, os metais estampam a passagem do tempo em suas superfícies, aprisionando a história viva em sua pele mineral. 

III. A meteórica experiência de viver 

Ao desacelerar a transformação de alguns ingredientes ou prolongar sua existência por meio da blindagem do metal, a artista preserva aquilo que, por natureza, seria efêmero. Mais do que congelar alimentos, suas esculturas conservam gestos, técnicas e modos de fazer. Valentina nos convida, assim, a testemunhar a transformação da matéria e a perceber que, entre natureza e cultura, cozinhar é inegavelmente uma das maiores tecnologias humanas. 

É assim que o “doce na ponta da língua” se desprende do antigo mito biológico para se tornar uma cápsula de memória viva. Em sintonia com o poema de Char, a obra de Valentina trata da nossa pequena presença humana diante do imenso universo da natureza. Por mais rápida e sutil que seja a nossa participação se comparada ao ecossistema que nos cerca, ainda mantemos o privilégio de nos deleitar com a oportunidade de ter nascido. É a prova contundente de que este meteoro humano, por força do tempo, continua teimosamente a extrair da terra um mel que se oferece doce até demais para a nossa língua. 

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