O fogo possui uma força ambígua capaz tanto de consumir quanto de transformar. Essa dualidade pulsa nas pinturas de Ana Herter, onde o elemento ultrapassa o seu papel destruidor para se tornar presença simbólica, potência de transformação e convite à escuta. Em Vozes do Fogo, a artista parte de imagens jornalísticas — registros que recortam a realidade com a frieza do factual — para levá-las a um território de subjetividade e reverberação poética. O que era documento torna-se vestígio; o imediato transforma-se em complexas camadas de sentido.
Composta por obras dotadas de densidade atmosférica, a exposição tensiona continuamente a relação entre as imagens e os seus significados. Nem sempre aquilo que se vê revela, de imediato, o que se quer dizer. Assim como nos terrenos marcados pelo incêndio, é só após a dissipação da fumaça que se dimensiona a extensão do dano — ou da revelação. Da mesma forma, as pinturas de Ana Herter são atravessadas pelo tempo, e só com a pausa e o olhar demorado é possível acessar as verdades que ali se anunciam em silêncio.
Embora convoquem temas urgentes — os esgotamentos ambientais, as queimadas criminosas, a violência recorrente contra a paisagem — as obras não se esgotam no discurso político. A artista bebe da fonte da teoria psicanalítica para abordar o fogo como símbolo de transformação, destruição e criação, refletindo a natureza dinâmica do inconsciente e dos processos psíquicos. Em suas pinturas, o fogo representa o desejo, a força interior, a fricção que nos move e transforma. Em cada tela, o elemento não apenas consome: ilumina, anuncia, renova.
Ao ocupar a Piccola Galleria da Casa Fiat de Cultura, a mostra propõe uma travessia entre o mundo e a imagem, entre o trauma e a possibilidade, entre o que arde e o que permanece. O fogo, nas imagens de Ana Herter, se faz linguagem — não apenas pela intensidade com que consome, mas pela espessura simbólica que projeta sobre aquilo que toca. Em meio a brumas densas e territórios calcinados, algo ainda pulsa. Nem gritos, nem ruídos: talvez ali estejam as Vozes do Fogo.
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