A partir do têxtil como campo de memória e ressignificação, a artista belo-horizontina Rita de Souza apresenta sua exposição individual e nos convida a reparar entre linhas.
Ao escolher a Chita, tecido simples de algodão, geralmente de estampa floral, de forte representação cultural, memória popular e resistência, a artista subverte a estrutura do tecido para tecer sua poética. Ao recortar pequenos retalhos de Chita, rompe o padrão estampado em fragmentos abstratos, dos quais manipula cuidadosamente, desfiando e esgarçando de forma espontânea, a ponto de o tecido se desfazer facilmente ao toque. Essa ação manual e lenta contrapõe-se à produção industrial do tecido, refletindo sobre o desgaste e a perda de identidade no fazer e desfazer.
Desse exercício de esgarçamento e ruptura do retalho, as estruturas delicadas e frágeis, ao mesmo tempo desconfiguradas, persistem em manter as nuances de suas cores como um resquício vivo da trama original.
Através do olhar atento à trama, Rita repara meticulosamente e com intimidade cada fio, cada espaço vazio, para em seguida tecer com a grafite uma paciente urdidura sobre o papel. A tecitura criada em tons de preto, branco e cinza registra as linhas frouxas, desestruturadas, rompidas e desfiadas, como quem procura dar visibilidade ao ordinário.
Perpassando fisicamente as linhas de bordado e de costura sobre o desenho, o tecido original é, de certa maneira, reintegrado, como se as tramas esgarçadas e monocromáticas feitas de grafite fossem reparadas. Essas sobreposições de fios reais sobre os desenhados, além de reinscreverem as cores às tecituras, incorporam materialidades físicas e simbólicas ao trabalho.
Para a artista, os gestos íntimos e precisos, como os de uma sutura, remetem ao bordado e às práticas têxteis ancestrais, geralmente associadas aos fazeres do universo feminino. Esses gestos manuais são metáforas reparadoras onde o ato de coser ou bordar é desenho e observação.
Os fios entremeados pela artista aludem ao conceito japonês do wabi-sabi, que encontra beleza na simplicidade, nas fissuras e nas marcas do tempo, considerando que nada que existe é livre de imperfeição. Nesse sentido, Rita de Souza experimenta sua poética da imperfeição, evidenciando o ordinário, aquilo que a princípio passaria despercebido, ganha visibilidade ao ser reinventado.
Essa valorização das imperfeições é elemento essencial que atravessa essa série de trabalhos e reforça seu caráter sensível e reflexivo. Além do cuidado, da intimidade e da delicadeza, há um sentido de força e resistência associado às feituras artesanais e têxteis, sendo que tradicionalmente, até pouco tempo
atrás, essas práticas eram consideradas “artes menores”. Desse modo, a artista apresenta o seu tempo dedicado entre tramas, traços e linhas como um modo de ressignificar conhecimentos e práticas manuais em linguagem contemporânea.
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